Construção – Chico Buarque

03/04/2026 Off Por Sandro Múcio

Todo mundo conhece a letra daquela música que terminar todas as frases em proparoxítonas. Não, não é Robocop Gay, dos Mamonas Assassinas. Estou falando de Construção de Chico Buarque.

Os versos têm todos o mesmo número de sílabas. Narram a história de trabalhador da construção civil que sai de casa e cai da construção em que trabalhava e morre no meio do trânsito num sábado como outro qualquer.

Nos detalhes, a gente ouve uma canção que começa com poucos instrumentos e uma harmonia simples com frases secas e diretas. Mas a canção vai num crescendo de harmonia, adjetivos, instrumentos, vozes e termina em uma apoteose de aceitação pela finitude e limites sociais da vida de um trabalhador.

Lendo a letra, observamos que o evento é sempre o mesmo. O trabalhador faz amor com sua esposa, beija seus filhos na despedida e sai pro trabalho. Constrói 4 paredes, almoça sua marmita de todos os dias, tropeça, cai do prédio em construção e morre no solo no meio do trânsito do sábado.

Mas essa história se repete 3 vezes. Cada uma delas de uma perspectiva diferente. Como quem lê notícia de um jornal, ouvi a mesma notícia no rádio e depois escuta a fofoca em um balcão de bar. A adjetivação dos eventos muda a forma como vemos os eventos pelos olhos dos diversos narradores. Um narrador objetivo, outro mais lírico e um terceiro mais romântico. Mas todos narrando o mesmo trágico evento do cotidiano das grandes cidades.
No final, temos uma invasão de outra canção incidental somente para mostrar o conformismo com o destino do trabalhador que vive uma vida simples e morre de forma trágica mas comum. E ele agradece por tudo que conseguiu conquistar na vida.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
(Beijou sua mulher) como se fosse a única
(E cada filho seu) como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpinteira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague