E como eu cheguei até aqui?

E como eu cheguei até aqui?

08/02/2026 Off Por Sandro Múcio

Sandro Múcio, 54 anos. Puts. Mais de meio século. E sigo sendo derrotado pelos acontecimentos da vida. Na verdade, tudo começa com a morte do meu pai.

Eu já estava meio desiludido com o curso que eu havia escolhido no vestibular. Engenharia Civil. Meus bons conhecimentos de matemática, física e lógica deveriam me ajudar. Mas, estudar em escolas particulares em um formato muito engessado com regras bem claras do que precisa ser feito para passar de ano não ajudaram quando cheguei na universidade e era cada um por si. Eu escolheria quais as ‘cadeiras’ que eu deveria assistir. Havia um roteiro que eu poderia seguir, mas nada obrigatório e resolvido. Eu deveria resolver que caminho seguir. Ah, lembro das conversas que em 1990 ainda havia aluno matriculado regularmente com matrícula de 1970. Ou seja, o cara estava enrolando na faculdade por 20 anos. Mas pelas regras, o cara deveria ser jubilado quando completou 9 anos no curso sem chegar a um termo.

Em resumo: detestei o formato muito solto. Aproveitei durante 2 anos pra circular pelo campus, conhecer outros cursos, reencontrar os amigos do colégio em outras aulas. E tomar muita cerveja na cantina ao som de Manoca na guitarra acompanhado de outros alunos do curso de música. A efervescência cultural era enorme. O curso chato. Alguns professores só indicavam as matérias, os capítulos dos livros e as datas das provas. O resto era entre você e você mesmo. Outros eram legais e davam aulas nos formatos mais comuns. Lousa com textos e gráficos e explicação oral, exercícios e finalmente provas.

A faculdade quem faz é você. Ela está lá com todos os defeitos que tantos expõem. Mas muitas qualidades que poucos tentam explorar.

Perdi muito tempo nesses 2 anos. Minha oportunidade de ser engenheiro, ser um dito cidadão respeitado e ganhar nem sei quantos mil cruzeiros por mês. Perdi. Primeira derrota profissional. Ou seria derrota acadêmica? Que importa? Perdi meu pai. Um domingo, enquanto eu estava fiscalizando as provas de um concurso público (seria meu primeiro trabalho remunerado), ele saiu com dor de cabeça para encontrar os amigos. Voltou com dor de cabeça. Tomou um caldinho para descansar e foi se deitar. Do meu quarto escutei quando ele pediu pra minha mãe ligar para o irmão dele que ele estava passando mal.

Foi um derrame. Um AVC. Uma semana de muitas pessoas rezando em minha sala. Quando eu voltei do hospital onde havia passado a noite do lado de fora da UTI e de onde havia ouvido o médico falar da morte cerebral do paciente dele que era meu pai, eu deixei de acreditar em Deus. Então, essas rezas só era protelação do fatídico e uma forma de escárnio com aquilo que eu já sabia. Encrudesci. Não chorei. Respeitei todas as orações. Todas as pessoas que chegaram e foram. Mas só tremi o corpo todo quando o telefone tocou na madrugada da sexta-feira, às 4 horas para informar que meu pai havia finalmente descansado.

Larguei Engenharia Civil. Fiz novo vestibular para Administração de Empresas. Passei. Estudar à noite. Arrumei um emprego de promotor de vendas para a Johnson & Johnson e fiquei 10 meses trabalhando. Um colega de trabalho que deveria ter o mesmo nível funcional que eu mas se portava como meu chefe me deu uma ordem que eu disse que não seguiria. Ele forçou a barra. Mandei ele se f*der. Pedi demissão antes mesmo dele entender o que eu havia dito. Liguei pra empresa e pedi pra sair. Quando ele veio falar comigo para mudar de ideia eu já havia assinado a rescisão. Adeus Johnson & Johnson, seus cottonetes, suas fraldas descartáveis, seus creme de proteção solar, seus FPS’s, etc… Seus 10 salários mínimos e seus mais 10 salários mínimos para ajuda de custos. Sim, abri mão de 20 salários mínimos simplesmente porque não queria ninguém me dando ordem. Eu tinha 20 anos. Entendam. Inconsequente.

Alguns meses depois eu estava contratado pela Sadia Concórdia, seus frangos assados, perus temperados e congelados, mortadelas, salsichas, presuntos de porco, frango e peru, presunto parma, etc.. Era um vendedor de suporte. Ou seja, se os vendedores não conseguissem atender o cliente presencialmente, eu ligaria para o cliente e fazia a venda pelo telefone. No fim do dia, todos os vendedores voltavam ao escritório e me entregavam todos os pedidos que eles haviam feito e eu transmitia os pedidos pelo telex da empresa para a filial de Recife que conferia as vendas, carregava caminhões de entrega durante à noite para que esses fizessem suas entregas durante o dia seguinte. Ao fim das entregas, esses caminhões vinham prestar contas a mim para não viajarem de volta para Recife com dinheiro. Eu recebia os pagamentos, cheques, dinheiro. Preparava os depósitos. Cruzava a avenida, entrava no banco depois do horário do expediente bancário para não chamar a atenção e voltava de lá com os comprovantes de depósito para enviar por malote para a filial de onde os pedidos haviam sido enviados.

Havia acúmulo de funções. Havia horas extras. Eu anotava tudo direitinho. Recebia tudo direitinho. Trocaram o gerente do escritório. Ele decidiu que eu não precisava mais fazer horas extras. Então, todo o esquema que eu havia montado, meu checklist de tarefas, meus horários a cumprir. A hora de preparar o malote, a hora de ligar para os clientes. A hora de receber a prestação dos caminhões, a hora de depositar os valores recebidos e finalmente a hora de transmitir os pedidos no telex ficaram impossíveis de serem cumpridos. Aquilo que eu terminava sempre às 19 horas precisava ser encerrado às 17 horas para não ter hora extra. Esse conflito gerado pela decisão da gerência que não pagaria horas extras mas queria que elas fossem feitas regularmente resultaram em eu anotar todas as horas extras que precisei fazer e ele foi obrigado a pagar. E assim, ele sentiu-se no direito de me demitir. Já estamos em quanto na contagem das derrotas?

Minha ex-namorada estava grávida. Eu já namorava outra. Sabe aquela chantagem que engravidou vai ter que casar? Não funcionou. Pelo menos não nesse caso.

Quando eu fui demitido da Sadia, eu estava namorando e peguei minha rescisão da Sadia, FGTS da Sadia e da Johnson & Johnson, uma graninha que ainda existia da herança do meu pai e montei uma papelaria em sociedade com a namorada atual (não com a grávida). Fomos morar juntos. Foram 2 anos maravilhosos até entrada do Plano Real. Tem uma frase dessa época que eu jamais vou esquecer:
– Não compre que o preço vai baixar.

Aqui é importante abrir um parêntese: Quando Collor foi eleito contra Lula em 1989, ele confiscou todos os valores depositados em banco. Eu ainda era estudante. Mas qualquer pessoa, empresa, coisa que tivesse dinheiro em banco teve seus valores confiscados. A ideia era congelar a economia e fazê-la ser recriada do zero. Assim, todos teriam somente 50 mil cruzeiros em suas contas para viverem. Isso hoje equivaleria a algo em torno de 5 mil reais. Esses valores são hipotéticos. Eu teria que pesquisar sobre os valores verdadeiros, mas quero escrever somente sobre sentimentos. Depois de 18 meses ele começaria a devolver os valores em outros 18 meses corrigidos pela inflação maquiada pelo governo nesse período. Ou seja, você foi roubado pelo governo a cara dura e ficaria por isso mesmo. Fecha o parêntese.

Eu aprendi a usar computador para fazer banners na impressora matricial. Usando fax, a gente enviada propaganda para muitos clientes em potencial. Eu vendias 50 caixas de papel por dia. Quando FHC assumiu o governo, tinha uma jogada de plano real que estava em curso e muita gente tinha desconfiança que poderia ser feito um novo confisco ao estilo anterior. Qual foi a nossa ideia? Comprar estoque de papel para que o confisco não pegasse nada em nossas contas. Papel era papel e seguiria sendo papel com ou sem confisco. Com a virada com plano real e a frase de não compre que vai baixar, muitos dos meus clientes que compravam as 50 caixas reduziram o volume para 10 por cento e eu devendo um monte de boletos às fábricas. Em resumo, minha papelaria quebrou. Meu ‘casamento’ também acabou. Era o ano de 1994 e eu fiquei com um fusca 1972, minha ‘ex-mulher’ ficou com outro fusca 1972 que foram os carros que conseguimos salvar na falência da papelaria. Não salvamos nosso relacionamento.

Voltei pra casa da minha mãe. O fusca pegou fogo e queimou minha perna. Tenho a cicatriz até hoje. Vendi o que sobrou do fusca. Arrumei outra namorada. Arrumei outro emprego para vender medicamentos. Perdi o emprego dos medicamentos. Arrumei um emprego em uma transportadora. Com 3 meses, recebi proposta de um concorrente e migrei de emprego. Nessa segunda transportadora tive contato com um sistema de banco de dados e uma interface dataflex. Minha segunda incursão em informática pela área comercial.

Computador era algo totalmente fora de moda. Ninguém entendia direito daquilo. As coisas em empresas ainda passavam por fax, telex, malote, telefone. Eu já estava aprendendo sobre banco de dados, design, Word, Excel, PowerPoint, MS Access. Só pra ter uma ideia: Até 1995 o Windows era um programa dentro do sistema operacional MS-DOS. Em 1995, o Windows passou a ser o sistema operacional e o MS-DOS ficou como um prompt de comando dentro do Windows.

Da minha incursão em transportadoras eu encontrei um emprego num laboratório farmacêutico. Era visitar médicos para convencê-los a receitar nossos medicamentos e depois passar nas farmácias e distribuidoras para comprarem nossos medicamentos para os pacientes poderem achar os remédios receitados pelos médicos. Mais um emprego que durou pouco.

Do laboratório farmacêutico, eu fui pra vendas em cervejaria. Uma distribuidora Skol. A empresa era uma terceirizada. Tinha tudo da Skol, todas as responsabilidades, só que o salário não era da Skol, era da distribuidora. A grande vantagem era o aprendizado. Como a Skol pertencia à Brahma, o modelo de vendas era padronizado pela fábrica. O manual de vendas era incrível. Todas as ações estavam lá pontuadas, exemplificadas, sequenciadas. Era seguir o manual e conseguir vender para qualquer cliente. Mas o manual era uma ferramenta auxiliar ao sistema computacional que controlava as vendas, os vendedores, as rotas, as cargas, as pesquisas. Todos os aspectos de funcionamento da distribuidora estavam registrados nos computadores, bancos de dados. Como eu tinha uma certa intimidade com computadores, eu transitava tranquilamente entre as equipes de vendas e de informática. Em diversas ocasiões eu ajudei o pessoal de informática com planilhas, relatórios gerenciais, etc.

Nesse mundo comercial de bebidas, eu passei por Skol, Brahma e Antárctica, essa no momento da fusão que resultou na AmBev. Aprendi muito sobre vendas e sobre como controles computacionais resultam em direcionamentos de vendas melhores.

Depois da aventura no ramo de bebidas, eu arrumei um emprego de vendedor de sandálias. Em uma semana eu voltei para a empresa e pedi para ser demitido. Era tudo muito desorganizado. Nada parecido com o ambiente vivido com bebidas comercialmente bem estruturado. Aí, o dono da empresa de sandálias perguntou o que eu poderia contribuir para melhorar essa organização de vendas.

Finalmente eu estava onde me sentiria mais confortável. Trabalhando com informática, desenvolvendo programas de computador voltados ao direcionamento de vendas. Eu percebi que a área comercial não era meu caminho de conforto. Eu gostava muito mais desse ambiente computacional.

Nessa distribuidora, eu criei um programa que lia os dados de vendas dos vendedores, das cidades, dos clientes. Com essas informações, eu sabia quando o estoque de um determinado cliente estaria propenso a nova tentativa de vendas pelo nosso vendedor. Com esse direcionamento, a distribuidora de sandálias aumentou em 80% as vendas em um ano. Não que eu seja um gênio de informática. Isso somente demonstra o quanto uma equipe de vendas mal assessorada pode perder vendas e o quanto uma equipe bem direcionada consegue evoluir.

Depois desse monte de derrotas, eu havia experimentado uma vitória.

Mas aí vamos ao lado cruel do sucesso. Meu programa funcionava bem sem mim. Com o tempo, eu fiquei recebendo pagamentos sem fazer praticamente nada. Um ano depois das últimas intervenções no programa, eu fui demitido. Não foi uma derrota. Eu sabia que não estava fazendo mais nada. Tanto que já havia preparado minha saída. Montei um escritório em casa e estava estudando desenvolvimento web. Criação de sites, sistemas que funcionassem na internet seriam minha aposta para quando eu estivesse desempregado.

O problema de ser autônomo é a ociosidade. Você tem tempo de sobra. Até que apareçam os primeiros clientes você faz o quê? Propaganda de si mesmo? Mas eu não tinha portfólio para apresentar. Comecei criando sites de exemplo. Não foi suficiente. Fiz alguns aplicativos que não foram pra frente. Ninguém comprava. Eu devo está fazendo algo errado. Preciso aprender sobre esse mundo de desenvolvimento. E onde se aprende sobre isso? Faculdade. Fiz novo vestibular. Já havia feito para Engenharia e para Administração e havia abandonado as duas. E Administração eu passei duas vezes. Na primeira vez eu abandonei para trabalhar em Carpina com as sandálias e a segunda, eu havia casado e trabalhava com bebidas e tinha filha e esposa para cuidar. Achei que a faculdade esperaria. Portanto, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas seria meu terceiro curso, minha quarta entrada em faculdade e minha 5 aprovação. É… eu fui aprovado em um vestibular quando ainda não havia terminado o segundo grau e portanto não podia fazer faculdade. Era aquela prova que a gente fazia para perder o medo sem a responsabilidade de passar. Mas eu passei. hehehehe

Voltei pra faculdade. Dessa vez de informática. Ainda no primeiro dos três anos do curso, recebi uma proposta de trabalhar meio expediente a manutenção de 3 programas de contabilidade, tributação e financeiro de entidades públicas. Era outro universo diferente de vendas. Era burocracia estatal na veia.

Durante esse curso, recebi também um telefonema de um contador que trabalhava com diversas prefeituras perguntando se eu sabia fazer portal de transparência que era onde as prefeituras deveriam publicar os documentos de prestação de contas de suas administrações. Uma das prefeituras havia contratado um cara para fazer, ele cobrou 4 mil reais, enrolou por vários meses e não entregou o projeto. Eu cobrei 400 reais e entreguei o projeto em uma semana. Mas, agora, já sabendo que eu não poderia ficar obsoleto para não perder mais um emprego. Eu passei a cobrar para alimentar o conteúdo desses portais da transparência pelo mesmo valor pelo qual eu havia feito a ferramenta.

Já em 2016, essas prefeituras não poderiam mais contratar pessoas físicas para fazer o serviço que eu fazia. Perdi diversos contratos. Criei uma empresa do nada. Somente um CNPJ para poder contratar com prefeituras. Ainda consegui contratar com algumas. Meia derrota para minha pilha de perdas pela vida profissional.

Ah, durante esses anos trabalhando para empresas de contabilidade públicas, eu percebi uns problemas que prefeitos passam em suas administrações. Eles dão posse a secretários que vão cuidar de áreas como educação, administração, infraestrutura, saúde, etc… Esses secretários passam a controlar despesas como merenda escolar, transporte escolar, hospitais, medicamentos, insumos, construção de estradas, ruas, prédios, saneamento básico, esgoto. Tudo passa por um secretário. Acontece que esses secretários não são escolhidos entre os melhores amigos, mas entre os aliados de ocasião. E aliados de hoje podem ser adversários de amanhã. Basta uma mudança política. E o que pode ser problema nisso. Esses contratos, pagamentos, tudo precisa de assinaturas dos ordenadores de despesas além dos gestores municipais. Aí, um fornecedor entrega a merenda das crianças e vai receber seu pagamento. ele precisa que esse pagamento tenha a assinatura do secretário de educação. Ele desvia da obrigação autorizando verbalmente o pagamento sem assinar esse documento. É burocracia. É necessário que seja assinado. Mas quem está na boca do caixa quer receber e o secretário está longe autorizando o pagamento verbalmente e dizendo que depois, quando estiver na prefeitura, ele assina. aí, o caixa faz o pagamento sem essa assinatura. Com o tempo, temos centenas de pagamentos feitos mas sem assinatura do responsável. Nessa hora, o prefeito não pode mais brigar com o secretário e o demitir. Isso vai fazer com que ele dê posse a outro secretário de educação que vai seguir com o ordenamento dessas despesas. Mas os pagamentos que foram feitos sem assinatura só podem ser assinados pelo secretário que foi demitido. É a chantagem que o prefeito se coloca por falta de um controle mais rígido de pagamentos.

Resumo: Eu criei um programa que legalmente faz com que os documentos possam ser assinados digitalmente pelo celular. Com isso, sempre que eu secretário recusar assinar um pagamento, o caixa é obrigado a recusar o pagamento até que o secretário, esteja onde estiver, assine digitalmente a ordem de pagamento. Com isso, o prefeito escapa dessa chantagem e pode seguir com sua administração sem inimigos íntimos.

Criei esse sistema, consegui contratar com mais de 20 prefeituras. Tenho mais de 5 milhões de páginas de documentos de prefeituras arquivados em meus servidores. No final de 2024, as prefeituras não renovaram meus contratos. Meu representante comercial deixou de oferecer meu sistema. Não tenho contato direto com as prefeituras. Desde o começo eu tentei escapar dessa parte comercial. E essa parte comercial vem me traindo.

Em 2025 não emiti nenhuma nota fiscal. Não vendi nada. Tenho mais de R$ 40 mil a receber de trabalhos realizados até 31/12/2024. Preciso continuar trabalhando para pagar minhas contas.

Por isso, quando apareceu uma proposta de trabalhar como suporte de um call center durante a madrugada (das 22:50 de um dia até às 5:10 do dia seguinte, regime 6×1) ganhando um salário mínimo mais o adicional noturno eu topei. Por isso estou aqui.

É o recomeço. É a nova oportunidade. Vejamos o que esse novo caminho me reserva. Que seja bom.